Conduzir um super carro


Já fez, talvez, uns 2 anos desde que tive a experiência de conduzir um Ferrari. Quando sai do carro, estava todo entusiasmado para ir escrever no blog do We Like Cars sobre essa experiência e depois de algumas horas a escrever e a rescrever, a apagar e a começar de novo, decidi desistir da ideia por esse dia... No dia seguinte tentei outra vez sem sucesso... Talvez quando enviarem o vídeo da experiência, eu consiga... não. E passou uma semana, um mês, um ano e hoje estou aqui a tentar falar sobre aquilo que não consegui transcrever para um documento digital, outra vez.

Existem alguns factos que as pessoas têm de ter em conta quando se sentam num super carro. É que são carros de outra liga, são carros de outro mundo, não é nada como o carro que conduzem todos os dias. As pessoas caem no erro em dizer: "Mas tem 4 rodas, como todos os, outros, um motor, como todos os outros, volante como todos os outros..."
Sim, os componentes são como todos os outros, mas é o mesmo que dizer que o avião dos irmãos Wright é a mesma coisa que um caça F18 ou F22, ou seja lá qual for o F que está hoje em vigor...

A grande diferença entre o Super Carro e o Carro normal é a palavra Super! Pode parecer estúpido, mas hoje em dia, devido aos abusos do marketing, em chamar super isto, super aquilo, parece que super não é nada de especial. Bolas, hoje já ninguém vai ao Super mercado, vamos antes ao Híper, que é mais do que super! Mas quando um carro é categorizado pela imprensa como sendo um Super carro, atenção... pois aquilo é um animal radicalmente diferente dos carros que conduzimos no dia a dia. 

Um super carro e um carro é como um tigre está para um gatinho. São basicamente a mesma coisa, em termos de ADN é 99,9% igual... mas é a diferença entre levares um arranhão, ou da tua cabeça ser arrancada, enquanto que o teu corpo é rasgado e picado até não sobrar nada.

Quando entrei no Ferrari 360 Modena, já na altura não era um dos melhores Super Carros que existia. Com um V8 a debitar 400 cavalos de potência, já existiam muitos carros que ultrapassavam largamente essa potência. Mas meus amigos... a forma como estes 400 cavalos vos é entregue é das coisas mais brutais que já experimentei. Esmagar o acelerador deste carro é o mesmo que abrir as portas do inferno. E eu não digo isto de ânimo leve, eu medi bem estas palavras antes de as escrever, é a única frase que o meu cérebro arranjou para descrever aquilo que eu senti quando passei do meu Mazda 2 de 86cv para um Ferrari com 400. Abrir as portas do Inferno.

Eis o que acontece quando esmagas o acelerador do Mazda 2. Se tiveres em primeira ele anda, se arrancares em segunda ele vai abaixo... Ok, se tiveres em altas rotações e esmagares o acelerador ele pode ou não andar mais... Até te pode pedir para meteres uma abaixo para passares dos 90km/h para os 92km/h... E tens todo o tempo do mundo para pensar... Aliás neste carro tu podes conduzir, e pensar naquilo que vais fazer quando chegares a casa: "dar comida aos gatos, fazer jantar, depois ver um episódio de Stranger Things..." Se tiveres uma longa viagem como eu tenho até chegar a casa, de repente estás a pensar onde estará a raça humana daqui a 20 anos, será que vamos ter carros voadores? E o sentido da vida? Será que o universo continua em expansão? E quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha?

Agora quando esmagas o acelerador de um Ferrari 360... Aqui depende se estás a usar a caixa automática F1 ou se estás a ser tu a colocar as mudanças com as patilhas no volante. Se o carro está numa quarta e tu de repente esmagas o acelerador sem usar as patilhas, ouves um "Táque táque" e depois os objectos que estão muito longe ficam logo ao pé de ti... Se tu usares as patilhas, é uma torrente de aceleração implacável... A aceleração aqui não é bem dos 0-100 que se mede, é dos 0 aos "oh oh... vou ser preso".

Vocês que jogam nas Playstations e Xboxes (para não ferir susceptibilidades) sabem aquele efeito dos jogos de condução em que quanto mais rápido aceleras a tua visão começa a ficar afunilada e ligeiramente desfocada. Pronto, isso é um efeito que existe mesmo na vida real quando começas a puxar por um Ferrari com 400 cv. Aqui não há tempo para nada, ou tu usas cada sinapse dos teus milhões de neurónios para conduzir este carro como ele quer ser conduzido, ou então estás morto. 

Acelerar neste carro é de cortar a respiração, curvar neste carro, põe em dúvida as leis da física, travar com este carro pode provocar paragem cardíaca, ou fazer recuperar alguém de uma paragem cardíaca... Se tu conduzires este carro como ele quer, e acredita em mim, este carro quer que tu andes com ele como se fosse um F1, o teu corpo vai passar um mau bocado. E depois vem a questão do facto de teres um cu e o facto de que quem tem um tem medo. É um carro que rapidamente se transforma numa sensação fabulosa para uma sensação de terror. Principalmente porque as coisas passam por ti de uma forma muito rápida, e a outra razão é que se perderes o controlo do carro, para além de ficares a pagar um carro para o resto da tua vida, podes morrer. 
Dito isto é muito engraçado conduzir um Ferrari!

Mas a sério que é. Ter um super carro é como ter uma montanha russa privada. E sim é um carro que também dá para andar devagar, mas não é um carro que possa ser conduzido de forma mundana, como nós conduzimos os nossos "Daily Drivers". Por exemplo, hoje que choveu a potes vinha completamente tranquilo com o Mazda 2. Se tivesse o Ferrari ia a conduzir com ele com a precisão de um cirurgião para não fazer nada que me fizesse ficar virado para trás ou de pernas para o ar. Aliás, quando fui andar no Ferrari 360, o funcionário disse-me que se tivesse a chover a experiência teria de ser mudada para outro dia. Sempre que passava numa zona que ainda não estava seca o instrutor, com ar de preocupado avisava-me para sob nenhuma circunstância acelerar nesse piso... 
E é como digo, é um carro extremamente divertido de conduzir! 

Não sei dizer se é melhor que um Lamborghini, ou que um GTR, porque nunca conduzi nenhum, mesmo que conduzisse não iria conseguir construir na minha cabeça um Benchmark fiável, pois teria de explorar ao máximo os carros e para explorar ao máximo estes carros, não é um qualquer ser humano que consegue fazer isso. Principalmente um que anda de Mazda 2... 

E voilá, parece que afinal consegui escrever sob a minha experiência num Super Carro! Agora só me falta arranjar coragem para escrever sobre outro carro que não é super, mas é muito especial para mim.













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