Eu estava pronto para detestar este carro. Antes de entrar nele já afiava a língua, preparado para dizer o quão atrasados estavam os chineses em relação aos europeus e japoneses. Até estava pronto para afirmar que era um sacrilégio ver uma marca como a MG ser usada como cavalo de Troia para os chineses se infiltrarem no mercado europeu. Uma marca com tanta história, com modelos tão icónicos…
Por fora, o MG4 Electric adota um estilo de carroçaria semelhante ao VW ID.3 e ao Cupra Born: um capot curto que, ao chegar ao habitáculo, prolonga a linha para oferecer grande conforto e bastante espaço, tanto para os ocupantes da frente como para os de trás. Depois, termina abruptamente num formato hatchback, com 363 litros de bagageira. É um estilo que não me agrada particularmente, acho o carro desproporcional, mas, sem dúvida, o design pouco elegante garante bastante espaço para os ocupantes. Quanto ao design em si, trata-se de um carro distinto, agressivo e angular, com algumas parecenças ao Kia EV6. Não o considero horrível, mas também não o acho bonito; ainda assim, creio que é bem mais interessante do que o ID.3. Mas se até aqui este carro é um pouco questionável, daqui para a frente as coisas melhoram bastante.
Em termos de tecnologia e de escolhas de engenharia, a MG acertou precisamente naquilo que um consumidor europeu entusiasta da condução procura. Este MG4 tem tração traseira e uma distribuição de peso 50:50 que, aliada ao baixo centro de gravidade, confere características dinâmicas acima da média. O motor, com 200 cv e 250 nm de binário instantâneo, acelera dos 0 aos 100 km/h em 7,9 segundos e atinge 160 km/h de velocidade máxima. Esta versão vem equipada com uma bateria NMC (níquel, manganês e cobalto) de 64 kWh, que proporciona 450 km de autonomia (WLTP). Já o modelo de entrada conta com uma bateria LFP (fosfato de ferro e lítio), mais durável, mas com apenas 49 kWh de capacidade, oferecendo 350 km de autonomia (WLTP). Curiosamente, apesar de ter “apenas” 170 cv, consegue ser mais rápido dos 0 aos 100 km/h do que a versão Luxury, cumprindo em 7,7 segundos. A MG afirma ainda que estas baterias, de 49 e 64 kWh, são as mais finas do mercado, com apenas 110 mm de espessura. Mas como os kWh não são tudo na vida, o que importa é que este carro é, acima de tudo, uma delícia de conduzir.
A sensação de condução sobressai logo desde a primeira curva. Num elétrico, o binário instantâneo numa configuração de tração dianteira raramente é boa ideia; mas aqui, com tração traseira e peso bem distribuído, o comportamento é previsível e facilmente controlado, mesmo quando surge alguma sobreviragem. Confesso que gostaria de ter tido mais tempo com o carro em estradas mais desafiantes, mas as primeiras impressões foram extremamente positivas. Outro ponto que surpreendeu foi a suspensão, que absorve as irregularidades da estrada com grande competência. Sendo proprietário de um DS3 Crossback E-Tense, posso dizer que o MG4 é muito mais confortável. E reforço o muito. Mesmo com jantes de 18 polegadas, a suspensão do MG4 comporta-se de forma excelente e superou as minhas expetativas.
No que toca a equipamento, a versão Luxury vem muito bem recheada: estofos em pele sintética, volante e bancos aquecidos, bomba de calor para maior eficiência com a climatização, jantes de 18 polegadas, entre outros. Tudo isto por 32 367 €. Já a versão Standard não oferece tantos extras e conta com uma bateria mais pequena, mas o preço começa nos 26 750 €. São valores competitivos, mas a grande questão é: será fiável?
O histórico da MG no que toca à fiabilidade não é o mais brilhante e, aliado ao estigma da produção chinesa, poderia gerar receios. Para contrariar isso, a marca oferece 7 anos de garantia total em todos os modelos. Um preço imbatível aliado a uma garantia robusta será certamente suficiente para aliciar muitos consumidores europeus a considerar um carro “Made in China”. Mas nem tudo são rosas.
Apesar de ter achado o carro muito competente, há um detalhe menos positivo: os avisos sonoros constantes. Sai-se ligeiramente das linhas da estrada? Aviso sonoro. Ultrapassa-se a velocidade? Aviso ainda mais estridente. Aproxima-se demasiado do carro da frente? Mais um aviso. O MG4 conta com o sistema MG Pilot, repleto de tecnologias de apoio à condução, mas no pouco tempo que passei com o carro, a insistência destes alertas sonoros quase me deixou à beira da loucura. É verdade que podem ser desligados, mas sempre que se volta a entrar no carro, os avisos reativam-se automaticamente. Será que existe um modo apenas visual, sem som? Espero que sim.
A MG pode ter encontrado aqui a fórmula certa. A fórmula de um verdadeiro “carro do povo” elétrico para o século XXI, aquela que a VW falhou com o ID.3. A versão de entrada, mais acessível, é mais rápida dos 0 aos 100 km/h, menos pesada e equipada com uma bateria de química mais durável. 26 750 € por um carro com 350 km de autonomia e 7 anos de garantia é um preço excecional. E no mercado de usados, já se encontram modelos de 2023 por menos de 20 000 €. A versão Luxury, que testei, tem mais extras e uma bateria maior, mas os únicos verdadeiramente relevantes são a bomba de calor e os bancos/volante aquecidos, que ajudam a maximizar a autonomia no inverno. O resto são sobretudo acabamentos estéticos e materiais mais nobres no interior.
O que posso dizer? Se estão céticos, experimentem este carro. Não vão ficar desapontados, a menos que já tenham gasto dinheiro noutro elétrico europeu ou americano.











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